Pensar as questões relativas à América Latina, quaisquer que sejam, obriga-nos a indagar sobre o que querem os EUA. Por maiores que sejam nossas pretensões, por mais competentes que sejam nossos diplomatas e mesmo que a Política Externa Brasileira tenha lógica, de nada adiantará aplaudi-la se não a observarmos dentro do subsistema americano.
Fazer isso, é o mesmo que perguntar o que os EUA desejam; como estão buscando seus objetivos e, então, podemos indagar as maneiras de contornar os passos norte-americanos apresentando uma estratégia, seja ela de confronto, de cooperação, ou de associação.
As questões relativas à ALCA estão imersas nesse universo. Não adianta apenas dizermos o que é melhor para nós, pois os caminhos alternativos que trilharmos não podem ser pensados isoladamente e os anseios americanos precisam ser entendidos para sabermos o que fazer, inclusive em relação ao uso do poder, “bruto”, (uso da violência física), algo que não dispomos, o qual também é contraproducente situação das relações internacionais, razão pela qual já podemos deixá-lo num plano secundário; quer seja em termos de “poder leve” (uso da atração cultural, da habilidade diplomática, da capacidade de construir alianças), o que mais nos importa, principalmente devido a nossa realidade econômica, política, cultural e militar.
Assim, para compreender esse universo temos de responder às perguntas: o que é a ALCA? Qual sua importância para os EUA? O que é a ALCSA? O que pode significar como alternativa à ALCA, bem como se é viável sua construção? E, finalmente, diante desse cenário, qual atitude se espera do Brasil em função da nossa necessidade, pensada em face de nossa real capacidade?
Para a primeira questão não precisamos divagar muito, ela já está na midia há um bom tempo, diremos apenas o que é prioritário. A ALCA pode ser entendida naquilo que ela representa: é uma forma de integração. A pretensão é a criação de uma área de livre circulação de mercadorias, como o próprio nome indica, propiciando uma integração dos mercados, o qual respeitará a lógica da “livre concorrência”. Os argumentos exclusivamente econômicos percorrem os extremos. Alguns centram na convicção de que será uma prática que propiciará grandes investimentos empresariais em países que, em médio e longo prazo, adaptar-se-ão à uma nova prática de produção e serão levados a participar ativamente da nova estrutura produtiva. A questão é de tempo, segundo afirmam.
Do lado oposto, os argumentos incidem no fato de que a concorrência será desleal pela diferença tecnológica, dimensão do capital concorrente e pela lógica individualista do capitalismo, que não socializará informação e tecnologia, não fará investimentos sociais nos países latino-americanos, quebrará as empresas e gerará desemprego, sem alternativas.
Tais argumentos econômicos, prós e contras, são importantes, devem ser levados a sério e desenvolvidos, mas não é o que nos interessa no momento. O problema que nos afeta diz respeito à política internacional e a pergunta chave não é saber se a ALCA é, economicamente falando, boa ou má, mas se ela é essencial aos EUA na conjuntura atual. E, se for, qual a disposição americana em tentar implantá-la, obrigando-nos a pensar no que fazer caso eles queiram ir até as últimas conseqüências para garantir a sua implantação.
Se olharmos para a conjuntura mundial atual, o que percebemos? O mundo cada vez mais caminha para ter três grandes potências que tentarão partilhar o sistema internacional, dividindo o bolo econômico. O que isso significa? Que lutarão para controlar mercados pelo mundo inteiro. É evidente que os seus vizinhos serão vistos como regiões naturais de controle, não admitindo concorrências que possam afetar a manutenção e o desenvolvimento de suas economias. Os EUA tem interesses no mundo inteiro e, na medida em que a ordem mundial evolui, têm visto seus interesses sendo enfrentados por países em desenvolvimento acelerado, ou em construção, que poderão confrontar a sua economia, casos da China e da Europa unificada. Tais países poderiam competir em nível mundial com capacidade de ação global, podendo afetar intensa e irreversivelmente a economia norte-americana.
Este é o problema: a América Latina sempre foi vista pelos EUA como seu fundo de quintal, no qual não podem admitir que seus interesses sejam contrariados sob o risco de se verem desafiados dentro de casa. Quaisquer ações que levariam ao surgimento de um grupo de peso, ou ergueriam de um grande país na América, tais como a constituição de um bloco econômico, igual ao Mercosul, ou como a ALCSA, será combatida. Talvez não lhes restem outra alternativa dentro da atual lógica do capitalismo e, nesse sentido, suas ações não são ilegítimas, nós é que não conseguimos conceber a dimensão dos problemas que eles têm e, por isso, patinamos em ações descoordenadas, por isso improdutivas.
Cabe-nos saber se a ALCSA não representa apenas isso. Primeiro, necessitamos dizer o que ela é: também é uma área de livre comércio, mas na América do Sul, com pretensões de ser aquilo que ALCA é, mas tirando seus defeitos e acrescentando as exigências que os pobres fazem para poder concorrer em igualdade com os ricos do norte. Com isso, pretende-se realizar uma integração de mercados num período de dez anos períodod no qual serão feitos investimentos em infra-estrutura, malha viária, áreas prioritárias, compartilhando tecnologias e propiciando investimentos que respeitem as condições trabalhistas para não gerar desempregos que seriam certos no caso de uma concorrência desleal.
Mas, vamos direto ao assunto: como será possível articular economias fracas, pouco representativas e escassas em capital, articulando-as de forma que se produza, em tempo hábil, infra-estrutura harmônica e um mercado que permita desenvolvimento significativo aos parceiros, em condições de igualdade? Ademais, como será possível pensar nessas condições igualitárias dentro do esquema capitalista atual, sabendo-se, inclusive, que a própria ordem mundial não tem sido muito tolerante com qualquer aventureiro, ou Dom Quixote, que queira se contrapor às certeza da liberal-democracia e do capitalismo, que são vistos como os melhores caminhos e se tornaram as condições mínimas para alguém se credenciar a participar do clube mundial e poder sentar à mesa de negociações com direito à palavra?
Não se está dizendo que se deve abandonar os sonhos e a busca de caminhos alternativos. Pelo contrário, é isso que se quer, mas antes de o Brasil optar por contrapor-se à ALCA, ou aderir à uma alternativa qualquer, ele deve investir em descobrir quais são suas verdadeiras forças, quais as possibilidades concretas e quem são os parceiros que podem acrescentar algo em seus esforços para sair da condição econômica em que se encontra. O problema é descobrir se tem capacidade de confrontar as exigências que lhes são mostradas, sem que, num grito demagógico, isso o leve a um atoleiro maior. Pior, sentando ao lado de parceiros que podem se mostrar perigosos e não apenas inúteis.
Aqui, não se está optando pela ALCA, ou ignorando a ALCSA. Ao contrário, concordamos com as percepções de que a ALCA causa apreensão! O que se está fazendo é mostrar que tais questões exigem que elas sejam tratadas por verdadeiros estadistas, que pensem o problema em dimensões mais amplas. Acima de tudo, que não partam da perspectiva de julgar as ações do outro sem saber indagar se há alternativas para ele, nas condições em que se encontram e, caso não haja, obrigando-nos a uma resposta, que ela seja sensata e não viagens inadequadas.
O que se pede é que nossos governantes cresçam, ou, ao menos, que não atrapalhem o Brasil de decidir o que quer ser quando crescer. Decidir qual deve ser o seu papel no cenário internacional é o primeiro indicador disso e, caso recuse a ALCA, deve ter clareza de qual é a alternativa sensata e viável para ela.
Se achar que a ALCSA é o melhor caminho, a resposta que deve dar é: e aí, o Brasil tem pernas para suportar o peso da cruz que vai ter de carregar, ou quererá apenas brincar de príncipe dos mendigos?
Co-autoria: Prof. Marcelo Suano
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