O entendimento da política internacional latino-americana, embora complexo, não impede que se possam identificar regularidades que perpassam sua história, bem como construir cenários. O ponto mais importante diz respeito a admitir que se deva adotar numa análise que responda aquilo que a América deve ser para nós.
Já é senso comum termos em conta que o Brasil foi um estranho na América: português entre espanhóis, império entre repúblicas. Mais interessante é o fato histórico sempre identificado de termos virado as costas para a América e visto a Europa como o foco das atenções. Tal ação foi reconhecida por analistas como um erro, pois, segundo afirmam além de impossível ignorar tantos milhares de quilômetros de fronteiras, o correto seria voltarmo-nos para os irmãos latinos num projeto de integração. Devemos relativizar estas avaliações. Primeiro, porque pela história das elites latino-americanas não se pode afirmar, categoricamente, que o processo de integração seria um caminho adequado, quando muito que seria correto. Segundo, pelo fato de não podermos esquecer o que a Europa representou nos séculos XVIII e XIX: ela era, literalmente, o mundo.
No mundo interdependente de hoje, a Europa continua como uma alternativa viável, principalmente diante das exigências do gigante do norte, trabalhando para impor suas políticas em todo o continente. Podemos dizer que a existência de uma Europa parceira, agregando forças para equilibrar as imposições dos EUA, seria menos agressiva e mais confortável que uma parceria com a China, ou uma Rússia reerguida.
Com relação a voltar as costas para a América, isso hoje não se coloca mais no universo mental: é impossível e, mais do que antes, deve ser o passo determinante desde que o Brasil saiba qual o papel que lhe deve caber, tendo clareza da configuração política que nos interessa.
São cinco os focos que, no momento, devemos observar para acompanhar a dança de um continente que deve estar propício ao Brasil: o México; a Colômbia; a Venezuela; a Bolívia e o Mercosul.
México – Faltando 150 dias para as eleições presidenciais, o México vive um fenômeno similar ao que levou Vicente Fox (PAN) ao poder. Ainda marcado pela crise econômica que atingiu o país em 1994, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), o mais popular, ainda paga o preço de sua inoperância na época. Foi assim que Vicente Fox foi eleito com o PAN, que nunca havia chegado ao poder. Hoje, o fracasso por não corresponder às expectativas populares, prejudicou a imagem de Fox e, principalmente, do PAN (Partido de Ação Nacional). Com isso, abriu-se uma terceira alternativa, por meio do PRD (Partido da Revolução Democrática), uma constante terceira força no país, que, contando com o prefeito da Cidade do México, Andre Manuel Lopez Obrador, obteve um apoio popular sem precedentes.
Consolidado como principal candidato para as eleições presidenciais desse ano, Lopez Obrador desbanca Roberto Madrazo, do PRI, e Felipe Calderon, do PAN. Sua possível vitória alteraria muito pouco a tendência esquerdista mexicana. Com características populistas, provavelmente investiria em ações assistencialistas, assim como fez na cidade do México. Seu relacionamento com os Estados Unidos deverá ser menos agressivo que o de Fox, além de mais cauteloso. Em relação à América Latina, o México continuaria isolado de nosso ambiente político. É possível afirmar que Lopez Obrador continuaria sem se importar com a cruzada esquerdista de Hugo Chávez, apesar de sua tendência também de esquerda.
Colômbia – Como principal aliado americano no continente, a Colômbia continua a receber investimentos pesados dos Estados Unidos, principalmente para a área de segurança e combate ao narcotráfico. O atual presidente Álvaro Uribe é o favorito absoluto para vencer as eleições que ocorrerão em junho. Seu principal oponente Horacio Serpa está com mais de 50 pontos percentuais atrás. Com melhorias visíveis na área da educação e, principalmente, na segurança pública, Uribe segue como um dos líderes latino-americanos mais apreciados na Europa e nos Estados Unidos. Para a América Latina, Uribe, embora pró-EUA e solitário, representa um elemento de equilíbrio na configuração de forças sul-americanas, pois consegue ser o contraponto aos avanço de Hugo Chávez, o que beneficia as pretensões de liderança brasileira no continente.
Venezuela – Embora as eleições venezuelanas ocorram apenas em dezembro, não é difícil imaginar os resultados em um processo eleitoral com a imprensa sob controle e com as dificuldades burocráticas para candidatos oposicionistas ao governo de Chávez. O principal atrativo das eleições na Venezuela será o crescimento de poder de Hugo Chávez. A eleição promete ser um grande show, ao estilo dos líderes personalistas do século XX, quando Chávez mostrará ao mundo a sua condição de líder do povo oprimido latino-americano. Logo, não será uma eleição para a Venezuela, mas para a América Latina. Porém, Chávez necessitará de uma grande habilidade para manter as eleições limpas, que seja para os observadores de todo o mundo. Quanto à oposição, se não houver boicote, representará apenas alguns gritinhos de formigas abafadas por um gigantesco travesseiro.
Bolívia – Muitos analistas sabiam que a vitória de Evo Morales era questão de tempo. Há muito sua ascensão era acompanhada pela mídia latino-americana e as seguintes crises institucionais bolivianas indicavam que o povo clamava por uma alternativa fora do padrão. Para o Brasil, a vitória de Evo Morales certamente representa uma série de problemas, pois somos os principais investidores no país. O problema é que tivemos de ouvir durante as eleições as garantias de Evo Morales ao povo de que nacionalizará vários setores da indústria. O cálculo é simples: ou as empresas brasileiras, por meio do Itamaraty, negociarão acordos que garantam sua gerência nas decisões administrativas das empresas lá fixadas, ou nossos investimentos na Bolívia ficarão reféns das decisões populistas de Evo Morales. Para o cenário latino-americano, sua vitória representa uma vitória política de Hugo Chávez, que é algo perigoso, caso o Brasil endureça as negociações com o governo boliviano. Não é improvável que o eixo de investimentos no país andino mude de Brasília para Caracas.
Mercosul – Atualmente o que evita a morte do Mercosul é a vergonha tanto do Brasil como da Argentina em admiti-la. Começou com a atitude do Paraguai de não reconhecer a China continental como a verdadeira China e sim Taiwan, o que impossibilitou um acordo entre China e o bloco do cone sul. O último episódio que demonstrou a moral do Brasil foram as recentes reuniões entre o Uruguai e os Estados Unidos para um acordo bilateral. O presidente argentino considera, hoje, Hugo Chávez mais interessante do que Lula. Por incrível que pareça, a entrada da Venezuela como membro pleno em dezembro transformou, em apenas um mês, Chávez na figura mais influente do Mercosul e reduziu o Brasil ao vice-timoneiro de um barco furado.
O resto da América Latina se encontra no eterno momento de mudança. Entre as mais significativas se encontra a liderança de Lourdes Flores nas pesquisas de opinião no Peru à frente Ollanta Humala. Resta saber se o Peru seguirá o exemplo do Chile, onde Michelle Bachelet se tornou a vitoriosa, ou o exemplo boliviano, que contou com a ascensão de Morales. O ano de 2006 promete ser mais um ano no qual a América Latina continuará como coadjuvante no cenário mundial.
3 comentários:
Parabéns Thiago,
aprecio muito a forma como escreve e coloca as tuas idéias.
Acredito que a população, estudantes, profissionais, etc., têm que ficar muito atentos ao crescimento do populismo na América Latina. O que realmente me incomoda é: o que esses "líderes" realmente têm como objetivo? Onde querem chegar? As suas intenções são realmente de erguer suas nações?
Os liberais estão inconformados, revoltados mesmo, com a possibilidade de mais quatro anos de um governo que acham "populista", por medidas como o Bolsa Família, o Luz para Todos, o aumento do salário-mínimo, a redução de impostos na cesta básica alimentar e na de material de construção para a casa própria, do crédito facilitado para aposentados, pensionistas e pequenos investidores...
Por isso, voto em Lula. São necessários mais quatro anos de Lula para que se pare com essa conversa fiada de que Bolsa Família é esmola, que o Brasil necessita é de mercado liberado (menos na hora do prejuízo, porque aí a Viúva "auxilia")... O Bolsa Família é um programa com regras - como, por exemplo, a que obriga a criança a comparecer à escola, ao médico, a tomar as vacinas - que contribuirão para um futuro melhor para o país, onde o Bolsa Família - aí sim - se tornará supérfluo. Mas isso não acontece de hoje para amanhã.
E enquanto o médio e o longo prazo não chegam, o que fazer com a legião de miseráveis que cerca as grandes cidades, com os mendigos - adultos e, tragicamente, crianças - alcoólicos, viciados em cola, benzina, thinner, esmalte, crack - muitos deles já completamente irrecuperáveis; o que fazer com os camponeses sem terra atropelados pelo agrobusiness; o que fazer com os que trabalham para os traficantes, para o crime em geral, se não há mercado de trabalho legal para eles; o que fazer com aqueles para quem o futuro já passou, que não se alimentaram a tempo, não estudaram direito, não têm o mínimo preparo para enfrentar esse mundo altamente competitivo do mercado liberado; aproveitarmos nossa imensa fronteira marítima e lançá-los ao mar, sem bote ou salva-vidas?
Se foram necessários oito anos de governo FHC para que o brasileiro se visse livre da dependência da correção monetária, que o fazia viciado em inflação, precisamos agora de mais quatro anos de Lula no governo para que o país entenda de uma vez por todas que se acabou o tempo de planejar o Brasil sem levar em conta os mais pobres. Por isso, sou Lula de novo
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