8 de fevereiro de 2007

A Nova Venezuela e o Velho Socialismo


Artigo publicado no dia 02 de fevereiro pela Agência Estado de S. Paulo

Por Thiago de Aragão e Marcelo Suano



No final do ano passado, quando Hugo Chávez proclamou que concebia um novo modelo de esquerdismo, à sensação que transmitia ao mundo era de que suas declarações tinham objetivos especificamente eleitoreiros. Visava inflamar as massas com uma retórica igualitária, algo como “projeto minha gente” para “descamisados”, defesa dos “excluídos”, ou “projeto fome zero” para aquelas pessoas “que não têm três refeições por dia”, que “só quem passou por isso pode saber”.

Parte dos analistas assistia ao crescimento de Manuel Rosales e achava que a idéia chavista iria produzir efeito contrário, pois o povo venezuelano não aceitaria mais medidas antidemocráticas para poder efetivar uma proposta socialista, ainda mais com uma política externa claramente expansionista que utiliza os recursos advindos da alta do petróleo, sem produzir efeitos diretos na melhora de sua condição.


Esses analistas chegaram a apostar no fracasso do presidente porque Rosales bateu seguidamente nessa tecla e pensou-se que seu discurso de oposição estava produzindo efeitos.
Passadas as eleições, percebeu-se o erro de terem superdimensionado à capacidade analítica do povo. O presidente Chávez venceu mais uma vez e, na cerimônia de posse, enunciou um discurso que assustou à comunidade latino-americana, pois veio acompanhado de medidas que podem interferir no subsistema regional.


Discursou que o socialismo é o caminho e, para provar que seu raciocínio é sensato, confirmou que o cancelamento da concessão à RCTV era uma medida democrática, pois a Rede não agia em função dos interesses do povo e isso não é suprimir a liberdade de imprensa, pelo contrário (!).
Para coroar, começou o processo de nacionalização das empresas de energia elétrica e de telecomunicações, sabendo-se que é o início de uma lista que virá. Libertariamente, nacionalizou porque, no novo socialismo, é feio falar estatizar. Só esqueceu de avisar que no seu país apenas o Estado pode se apropriar das empresas estrangeiras.


Podemos interpretar que, de acordo com o Camarada Hugo, a idéia de um novo socialismo tem duas pretensões: criar uma nova Venezuela e refundar à esquerda com um socialismo contemporâneo. Chávez, militar de carreira, agora quer ser intelectual e sociólogo de carteira, como uma espécie de Giddens do início do século XXI, concebendo uma “terceira via”.


Como tem dinheiro de sobra, pois o petróleo não cansa de subir, resolveu que deve fazer doações pelo continente. Foi ao Equador e instalou um escritório do seu Banco de Desenvolvimento, começando com 25 milhões de dólares para ser usado em projetos sociais.


Continuou comprando Bônus do tesouro argentino e comunicou ao presidente Kirchner que não precisa se preocupar com as nacionalizações, porque as fez contra as empresas gringas. As latinas receberão outro tratamento.


Kirchner, que não é tolo, aceitou a diferenciação, pois, no limite, em condições normais de pressão e temperatura, aceitaria muito bem brincar de Chávez com cara de europeu. E aceitou como se fosse possível conceber uma escala que apresenta a seqüência: Estado Latino, Estado Gringo, Empresa Privada Latina e, no outro extremo, pois é a inimiga a ser combatida, a Empresa Privada Gringa.


Não deve assustar que o Estado Gringo seja mais bem tratado que a empresa privada nacional, pois seu problema é a propriedade privada dos meios de produção, embora seu socialismo seja bolivariano e não marxista. Gostaríamos que nos explicassem onde está a diferença!


Manteve seu contato com o companheiro Morales e está mandando soldados à Bolívia. O Congresso boliviano retrucou, mas foi ele mesmo que, num momento de sonolência dos senadores, aprovou o acordo militar Bolívia-Venezuela, com o voto de senadores suplementes. Agora, anunciou que dará todo apoio ao presidente Daniel Ortega, tanto que fará uma doação (isso mesmo, doará, não fará empréstimo) de 350 milhões de dólares para construir uma rodovia ligando o Atlântico ao Pacífico. Para completar, na reunião de cúpula do Mercosul defendeu a intervenção do Estado na economia.


Não podemos acusar Chávez de não amar a América Latina. Aparentemente, o presidente venezuelano aprendeu tudo de caráter intervencionista, populista e estatizante, que nosso passado tem a oferecer. Seu conhecimento da América Latina não é pouco, porém é falho. Mas, a crítica deve ser direcionada aqueles que estão ao seu redor, assistindo a um espetáculo onde até o menos informado sente o cheiro do fracasso. Contudo, se as maiores lideranças continentais estão com o nariz entupido, porque devemos esperar que o povo não ceda às palavras “sábias” de Chávez?


Ele está certo pela forma que percorre o caminho escolhido. Mas errou na estrada que escolheu, pois ela o levará à contramão do desenvolvimento, uma vez que está matando a capacidade criativa e o empreendedorismo de sua sociedade.


Ademais está jogando um jogo terrivelmente arriscado, comprando amigos em todos os lugares. Com uma economia fechada, que depende de uma única fonte de recursos, será bem catrastófico quando a fonte secar e os envolvidos no continente não tiverem como sair da teia de aranha que foi armada.


O mundo não é mais polarizado entre certo e errado, azul ou vermelho. Chávez definitivamente não é o oposto do “neo-liberalismo ianque” assim como o fórum social não é, nem de longe, a oposição ao fórum econômico. Mas esse maniqueísmo é necessário como recurso retórico para mobilizar massas na luta contra um inimigo comum. O mais curioso é que a energia que ele destina ao anúncio de novas rotas para o futuro tem gerado preguiça nos líderes latino-americanos.


Parece que não temos mais artesãos criativos que possam construir novas realidades para o nosso futuro, mas apenas alguns alunos que insistem em se consultar livros defasados numa biblioteca arcaica. Nada contra livros antigos, mas para ter capacidade de compreendê-los é necessário conhecer muito de hermenêutica e, definitivamente, esse não é o nosso caso.


Até o processo de nacionalização poderia ter sido feito de inúmeras maneiras. Dentre elas, porque não, uma cooperação com os investidores que sabem operar as máquinas que eles fizeram.


Poderíamos usar como metáfora a imagem de que o “Socialismo para o século XXI” nada mais é do que usar uma charrete para passear nas atuais rodovias. Certamente não poluirão, mas atrapalharão muito o trânsito. Assim é o socialismo que o Camarada (desculpem-nos) Companheiro Chávez busca para a Venezuela e, consequentemente, para a região.


Ele e seus colegas deveriam perceber que não temos ainda a escolha de jogar um jogo diferente daquele que o mundo está jogando, o sistema está mais interdependente. Se não quisermos brincar, seremos excluídos e só pode dar-se a esse luxo quem tiver condições de criar um microcosmo e se isolar. Atualmente, temos três bons exemplos que provam como isso é eficaz: Afeganistão; Iraque e Coréia do Norte. São três países ricos, pacíficos, estáveis e verdadeiros faróis para a humanidade.


Se antigamente tínhamos a poderosa União Soviética para salvar aqueles que embarcaram em sua aventura de falir, hoje, a Venezuela não pode ocupar esse lugar, pois não tem cacife para suportar um tranco maior. Por isso, na realidade, está agindo como aquele irmãozinho que acha que pode bater no irmão mais velho porque, agarrado em sua cintura fica chutando na sua canela e pensa que o irmão não responde por incapacidade.


Na realidade não o faz porque sabe que um tranco desmontaria a criança que não tem capacidade de perceber a verdadeira dimensão da realidade. Mesmo que queira, não é a Venezuela que poderá assumir o papel de fonte modeladora de um novo tempo, que está sendo filmado em máquina super 8 e em preto e branco.


Chávez não está construindo uma realidade para a Venezuela. Ao contrário, está construindo uma realidade para si mesmo. Tanto é verdade que o Movimento Quinta República (MVR), partido que liderou a coligação que o apoiou durante a campanha, aumentou de poder e “anexou” partidos menores que tiveram votações expressivas. Talvez esteja se inspirando no modelo cubano de partido único e centralizador, isso explica que tenha criado o Partido Socialista Unido, o qual é regido, praticamente, pela antiga direção do MVR.


Sua política de assistencialismo e clientelismo deverá aumentar consideravelmente no novo mandato e no seu plano está centralizar, gradativamente, a economia sob o guarda-chuva estatal. Poderá, assim, atingir durante certo tempo as classes mais baixas, aumentando o apoio popular. Também podemos aguardar uma maior militarização das instituições governamentais, pois o Movimento Revolucionário Bolivariano 200 (grupo composto principalmente por militares, do qual Chávez fazia parte, e tentou o golpe de estado em 1992) está hoje mais presente do que nunca na cúpula do governo. Os seus principais assessores e amigos são deste círculo e pressionam o presidente por cargos de alto escalão.


Essas alterações, certamente, não visam facilitar o caminho para o socialismo venezuelano, mas para o chavismo. Dessa forma, o socialismo vendido pelo Camarada (desculpem-nos, novamente) Companheiro Chávez é um processo muito mais conceitual do que estrutural. O que tem de estrutural é para manter o “criador” no cargo que ocupa e o conceito acaba fundindo-se à personalidade da figura Hugo. Da mesma forma que na década de 50 muitos líderes não eram socialistas, mas o socialismo se expressava no nome deles, Chávez também não será “novo socialista”, mas para os venezuelanos, “socialismo para o século XXI” será Hugo Chávez.


É possível que este pequeno mecanismo cause uma onda de percepções errôneas sobre o governo bolivariano. Mas, aqueles que estudaram história, conseguirão ver que sua pregação é apenas um nome novo para uma roupa velha.


Se pudessemos traduzir o nome do estilo que vingou na década de 50 para o espanhol, traduziríamos stalinismo, por “acerismo”, afinal stalin significa aço. Hoje com certeza ainda não é possível usar essa tradução, mas não devemos nos assustar se daqui a alguns anos o acerismo tiver como sinônimo a palavra “chavismo”.

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