
A reunião do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) ocorrida na Guatemala ameaçou aprofundar temas relevantes, mas, no geral, foi superficial. A participação dos ministros de Finanças de vários países, de presidentes de Bancos Centrais e outros agentes governamentais frustrou os economistas, investidores e analistas que vieram de todas as partes do mundo para acompanhar o evento.
No entanto, alguns temas importantes foram abordados e comentados. A criação do Banco do Sul; o PAC (Programa de Aceleramento de Crescimento); o ingresso da China no BID; o futuro do Mercosul e a visita de George W. Bush ao continente foram os assuntos mais discutidos durantes os três dias do evento.
A proposta de criação de um Banco latino-americano que promova o desenvolvimento social e econômico da região é a meta do Banco do Sul. Idealizado pelos governos venezuelano e argentino, com apoio do Equador e da Bolívia, o Banco foi um dos pontos mais polêmicos da reunião anual.
Sua função foi muito discutida. O veredicto é que poucos acreditam que o interesse seja trabalhar exclusivamente para o fomento de projetos sociais da região. Investidores e analistas de grandes bancos internacionais dividiram a mesma opinião: que o caráter é muito mais assistencialista e provedor de verbas para o populismo do que um Banco com objetivos similares ao Banco Interamericano, por exemplo.
Rodrigo Cabezas, Ministro das Finanças da Venezuela, buscou defender sua criação a qualquer custo. Quando palestrava ou simplesmente circulava pelo lobby do Hotel Intercontinental, Cabezas não falava apenas desse assunto e repetia a frase que se tornou bordão no evento: “vamos nos livrar das humilhações do Banco Mundial”!
O Programa de Aceleramento de Crescimento (PAC) do governo brasileiro foi outra estrela no evento. Não pelas melhores razoes ou pelo otimismo demonstrado por Guido Mantega em suas palestras. O PAC não foi bem recebido por investidores e economistas. Sua formulação é vista como superficial e a opinião de que a simples alocação de verba publica em projetos de infra-estrutura não será suficiente se o setor privado não for engajado totalmente.
A diminuição da alta carga tributária aplicada no Brasil seria o verdadeiro PAC, analisou um economista do Banco Merrill Lynch. Ministros de outros países também mostraram pouco otimismo com o plano brasileiro. O ministro da Economia do Chile e possível sucessor de Michelle Bachelet, Andrés Velasco, confessou em conversa particular que não “faria desta forma”, pois sem oferecer uma possibilidade do empresariado se envolver no plano (baixando a carga tributária) o projeto terá uma boa largada, mas não se sustentará por muito tempo.
Enquanto Matega buscava vender uma idéia que não agradava, Henrique Meirelles se destacou entre os ouvintes com uma série de palestras exaltando os pontos favoráveis da economia brasileira. A maioria do público que o assistiu ficou com impressão positiva sobre o futuro brasileiro, em curto prazo.
O ingresso da China no Banco Interamericano foi outra questão discutida amplamente.
Membros do governo argentino se apresentaram como os principias defensores da entrada do gigante asiático e se comprometeram em apoiar a entrada da China no BID, caso compre títulos da dívida portenha.
No ano passado, os chineses firmaram um TLC (Tratado de Livre Comércio) com o Chile e pretendem realizar acordos similares com outros países da América Latina.
No entanto, a maioria dos países participantes adotou a postura do “discutimos isso depois”.
Formalmente, o tema não foi tão abordado quanto se esperava. Novamente, o lobby dos hotéis foi onde mais se discutiu a entrada dos chineses no Banco. Apesar de campanhas contrárias exercidas pela Guatemala e pelo Paraguai (os dois países mantém excelentes relações com Taiwan), a sensação foi de que é uma questão de tempo até a entrada da China se formalizar.
O futuro do Mercosul foi discutido, principalmente, nos fóruns paralelos que ocorriam em outros salões dos hotéis. A entrada da Venezuela no bloco gerou muitas dúvidas sobre o comportamento político do Brasil dentro do bloco e, principalmente, quem deverá assumir a liderança informal do Mercosul: Kirchner, Chávez ou Lula.
Por fim, a visita de George W. Bush à América Latina resultou em muitas especulações. O incômodo que Bush sentia em relação ao presidente venezuelano Hugo Chávez está tornando um temor em função da viabilidade da extração de petróleo das reservas da Faixa do Orinoco. Estas reservas, caso exploradas aceleradamente, tornarão a Venezuela a maior produtora mundial de petróleo, superando a Arábia Saudita.
O investimento que os americanos pretendem fazer no etanol possui um caráter mais político que prático. A expectativa de produção em larga escala de um combustível ecologicamente correto pode diminuir a frenesi em cima do poder de Chávez na América Latina.
Em um círculo de renomados economistas argentinos e mexicanos, todos comentavam que a visita de Bush busca reviver a mesma estratégia da “política de boa vizinhança”, aplicada por Roosevelt pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Bush busca claramente definir quem são seus aliados e quem estará contra ele, para adotar uma política específica para cada país.
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