9 de fevereiro de 2007

CONJUNTURA POLÍTICA - Avaliação mensal da ARGENTINA


Elaborado por Marcelo Suano e Thiago de Aragão




Situação Política e Econômica


O governo de Nestor Kirchner obteve vitórias importantes ao longo do mês de janeiro, aumentando a estabilidade de sua gestão. O projeto de reeleição teve mais um ganho com a última pesquisa de voto realizada, quando mostrou que ele é o franco favorito à reeleição, sendo ainda o único candidato que pode apresentar um percentual superior à somatória de todos os demais concorrentes e um índice acima de 40%, como exige o sistema eleitoral argentino. Com Cristina Kirchner, a candidata alternativa do governo, haveria segundo turno. O ex-ministro Roberto Lavangna aparece bem distante de ambos, mas, no caso de um segundo turno, poderia lhes trazer problemas.


A tática do presidente está dando certo, principalmente porque está mantendo a economia sob controle, apesar das críticas que recebeu em Davos sobre o controle de preços de sua política macroeconômica. A receptividade do mercado e dos investidores continua boa. Ademais, o presidente recebeu as garantias de Hugo Chávez de que as empresas argentinas não serão tratadas da mesma forma que as outras estrangeiras no processo de nacionalização venezuelano. Outra vitória importante foi o anúncio favorável à Argentina contra o Uruguai na Corte Internacional de Haia, com isto Kirchner se manteve, aos olhos do seu povo, como o líder que tem reconduzido o país ao lugar que outrora teve.


Ameaças Domésticas


A questão política que precisa ser observada com cuidado é o controle sobre a oposição. Até o momento o presidente tem se mostrado inteligente em não entrar em discussões inúteis e está jogando para os opositores o papel de correr atrás dos pontos que necessitam na corrida eleitoral. Seu maior problema será não se permitir cometer erros que possam atingir sua imagem, diante de um segmento expressivo da população. O recurso propagandístico continua sendo uma boa tática, e também poderá usar a seu favor os resultados da Política Externa. Deve-se acrescentar que o principal candidato opositor perdeu um importante aliado para enfrentar o presidente na disputa eleitoral.


O Ex-presidente Raúl Alfonsín decidiu interromper o apoio que dava ao ex-ministro Lavagna. Com isso, a oposição se fragmenta e enfraquece. Economicamente, a Argentina está em situação estável, com elevado crescimento e baixa inflação, garantida pelo controle dos preços. O problema maior será a negociação dos salários com os trabalhadores tendo em mente não perder o controle da inflação. Mas, para enfrentar as críticas que pode receber nessa negociação, ele poderá usar como cartas na maga o atual índice de participação da classe operária no PIB, que está na casa dos 39% e o baixo índice de desemprego que continua abaixo dos 10%.


Ameaças Externas


O atual estágio da crise das fábricas de celulose, com o Uruguai, deu a Kirchner um importante trunfo. Muita gente foi pega de surpresa, pois parte significativa dos analistas considerava como certa sua derrota em Haia. Agora, é o Uruguai quem vai ter de correr para recuperar as perdas que isso representou em sua política externa. O presidente argentino terá apenas de negociar com as populações da região para tornar o triunfo em apoio político e, em seguida, convertê-lo numa importante arma eleitoral. As questões com Chávez não o afetarão em curto prazo, ainda mais que, apesar de Kirchner e Lula terem advertido o presidente venezuelano sobre o radicalismo de suas declarações antidemocráticas, os fatos estão mostrando que nada tem sido feito para afetar as relações a Venezuela.


É possível que a aproximação que os EUA desejam intensificar com a Argentina possa vir a produzir declarações de Chávez, pois o venezuelano também está estreitando as relações com os argentinos, agora com linhas preferenciais no setor agrícola, mas isso ainda demandará tempo. Terminada a reunião do Mercosul, nada de novo foi apresentado. A utilização de uma moeda comum continua em pauta, mas vai precisar de um tempo para ser efetivada. Lula fez críticas ao comportamento protecionista dos argentinos, mas é uma crítica que não se constitui em ameaça, pois não passou de jogo retórico do Brasil para demonstrar alguma força.


Prognósticos


A tendência para política interna é que Kirchner mantenha sua estratégia. Continuará sem anunciar sua candidatura e deixará a oposição se desgastar até se apresentar como candidato presidencial. As perspectivas são excelentes, tendo em vista que, apesar das críticas, tem mantido o controle da situação política e econômica e está anunciando medidas que gerarão emprego, com a construção de obras públicas. Com a tendência de desarticulação da oposição, o presidente vai esperar para converter os erros e fraquezas dos antagonistas em moedas de troca para o futuro médio.


Com relação ao Uruguai, o mais provável é que o presidente permita uma aproximação de Tabaré Vázquez para se mostrar como estadista e não como um político comum. O ônus do problema está com o Uruguai, por isso ele tenderá a esperar, mas não poderá negligenciar que os bloqueios das rotas para o Uruguai podem prejudicar também aos argentinos, por isso deverá buscar uma solução para o problema. Sua principal preocupação é individual: não pode permitir que outro líder apareça como o condutor do processo. Assim, sempre recua e espera o momento em que pode surgir em condições superiores.

Um comentário:

Djan Krystlonc disse...

Excelente seu blog.

Parabéns.