
Continuação da entrevista com o senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL).
Arko América Latina - Há algumas divergências a respeito do Mercosul. O presidente Lula disse que continua empenhado nesse projeto, a Venezuela está prestes a ingressar efetivamente, mas países pequenos, como o Uruguai, dão sinais de que o modelo prejudica a economia do país e impossibilita acordos bilaterais muito mais vantajosos. Certamente, esse não era o propósito do Mercosul. Em que ponto o senhor acha que o Mercosul está errando?
Collor - Nunca pensei no Mercosul, na integração, como mera junção de capacidades econômicas, mas sempre considerei que o sucesso dessa obra teria como base a superação das diferenças culturais históricas e, como argamassa, uma visão conjunta e solidária de futuro, uma união para superar vicissitudes em período de profundas transformações no cenário internacional, simbolizadas pela queda do muro de Berlim. A integração que sempre almejei tem a paz como pressuposto. O governo venezuelano, que vem aumentando sua influência na Bolívia, Equador e Argentina, elevou o patamar de sua ação ao propugnar uma aliança militar no âmbito da Alba - Alternativa Boliviana para as Américas - e dedica-se, freneticamente, à aquisição de armas. Isso é um assunto que merece mais cuidado e avaliação por parte do Estado Brasileiro.
A.A.L. - O senhor acredita que o Mercosul vai ganhar um novo fôlego com a entrada da Venezuela ou será um indicativo de que o Brasil vai ter mais problemas com o país vizinho?
Collor - Acho que temos que ver essa questão com uma certa cautela, não gostaria de fazer comentários além do que já fiz.
A.A.L. - Fala-se muito, especialmente na imprensa latina, que
dois presidentes disputam a liderança no continente: Hugo Chávez e Lula. Ambos negam esse tipo de competição. Em que medida esse tipo de especulação melindra as relações diplomáticas de um país?
Collor - Neste caso especifico não vejo como uma disputa dos dois.
A.A.L. - A respeito da Bolívia, o senhor considera acertada a conduta pacífica do governo brasileiro?
Collor - O aspecto energético tem sido objeto de negociações em que o Brasil tem feito seguidas concessões às ameaças bolivianas. O próprio Presidente Lula tem orientado essas negociações e determinado à Petrobras que ceda às imposições da Bolívia - alegadamente para não desestabilizá-la. Declarações no sentido de que se trata de assunto afeto apenas à Petrobras não fazem sentido, inclusive porque as reuniões em La Paz têm como participantes executivos da empresa brasileira e membros do Governo da Bolívia. Por outro lado, a Bolívia tem contado com crescente apoio da Venezuela que aumenta, a cada dia, sua influência. Acho que a política externa brasileira, neste caso especifico, tem sido meramente reativa, o que prejudica o país.
(Equipe Arko América Latina- americalatina@arkoadvice.com.br)
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