
Um dos personagens do processo de constituição do Mercosul, no começo dos anos 90, o ex-presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador pelo PTB de Alagoas, vê com preocupação os rumos tomados pelo Bloco nos últimos anos. "Vejo esgarçado por dentro", diz.
Para superar esse quadro, Collor defende a interconexão da infra-estrutura física regional e a correção das assimetrias existentes com economias menores, "dentro da estratégia que atenda aos interesses brasileiros e não às simpatias doutrinárias ou pressões conjunturais".
Em entrevista à Arko América Latina, o senador critica o viés ideológico que domina à política externa do governo Lula e os novos critérios de seleção para o Instituto Rio Branco, centro de excelência na formação de diplomatas.
Arko América Latina - Como o senhor avalia a atual política externa do governo Lula?
Fernando Collor - Acho que tem algumas falhas, sobretudo em relação à América Latina. O viés ideológico tem preponderado e isso não é bom. Recentemente, ocorreram vários problemas advindos da concepção equivocada com que participamos das negociações comerciais multilaterais, na rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio. Isso não é bom para o país. Uma política externa baseada no realismo estratégico, na pura defesa dos interesses nacionais, contribuirá diretamente para a aceleração do desenvolvimento a que se voltam os esforços atuais do Governo.
A.A.L - Sobre a parceria que o Brasil tenta fechar com os EUA, o senhor a considera positiva?
Collor - Em princípio, todas as parcerias comerciais são positivas, mas temos que analisar bem o que está sendo oferecido. A questão do etanol é muito complexa e o Brasil deve ter muito cuidado para que o caso não vire um novo problema como o da borracha.
A A L - Quais problemas o senhor aponta como cruciais para a projeção da política brasileira?
Collor - Acho que ações de política externa têm efeitos de longo prazo, por isso devem ser pensadas com racionalidade e planejadas com cuidado e isenção. No caso de nosso entorno sul-americano, vejo com preocupação que passamos a ter política meramente reativa. Outro problema que vislumbro, este com conseqüências futuras, é com relação à preparação dos nossos diplomatas. Devemos manter a excelência da formação dos novos diplomatas e não aceitar concessões populistas. Refiro-me aqui às facilidades, como aumentar de forma brutal as vagas para o Instituto Rio Branco, e fazer com que as línguas estrangeiras sejam apenas classificatórias. Foram aprovados recentemente candidatos praticamente ignorantes, por exemplo, no idioma inglês - ferramenta de trabalho essencial para o diplomata.
A A L - Em recente audiência com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o senhor disse que o Mercosul passou por uma descaracterização, que os propósitos do começo do Mercosul não foram alcançados, que era de união e paz entre as nações que o compunham. Em resposta, Amorim disse que esses propósitos ainda existem. O senhor acredita nisso?
Collor - A integração simbolizada pelo Mercosul começou, por ação precursora do Brasil, pela região sul do hemisfério, pela aproximação e busca de entendimento fraterno com países com os quais tínhamos, e logramos superar, problemas históricos: a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. Aos entendimentos entre os Presidentes Sarney e Alfosin (Declaração de Iguaçu em 1985) fizemos seguir medidas de "confidence building", mediante o acordo de criação da ABCC (Agência Brasileiro - Argentina de Contabilidade Nuclear) e do acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica que firmei em Viena, em 1991. A própria edificação de Itaipu, nos anos 70 e 80 foi, no fundo, também uma medida de construção de confiança, através do compartilhamento de recursos naturais para a produção energética. A integração demandou esforços comuns e superação de divergências. É processo longo e penoso, que se projeta no futuro, que não pode ser levianamente destruído. Tive a honra de firmar o Tratado de Assunção que criou o Mercosul, em 1991, e agora o vejo esgarçado por dentro. Sou favorável à iniciativa de interconexão da infra-estrutura física regional e à correção das assimetrias existentes com economias menores. Porém, dentro da estratégia que atenda aos interesses brasileiros e não às simpatias doutrinárias ou pressões conjunturais.
(Equipe Arko América Latina- americalatina@arkoadvice.com.br)
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