4 de junho de 2005

CONTRAPOSIÇÃO ENTRE PAZ E CONFLITO E SUA CO-EXISTÊNCIA ETERNA

A instituição de uma paz duradoura entre os povos, independente de que a história e seus interlocutores têm nos mostrado, é algo não só utópico, mas fora da essência natural do ser humano. Uma paz duradoura é uma ambição muito vaga e ampla para ser adotada por qualquer pessoa. A falta de especificidade sobre o foco onde uma “paz” seria implementada e necessária é um dos principais empecilhos para cogitar a implementação (ou tentativa) de tal.

Acredito que a paz possui diversos níveis de classificação. Tendo isso em conta, acredito ainda que a implementação de uma paz é possível apenas de acordo com uma situação específica que necessite de um ato de paz. Uma paz duradoura entre os povos, logo se torna impossível, já que o conflito é inerente e necessário para o desenvolvimento social e a paz possui diversos graus de classificação. Uma convivência pacífica é bastante relativa, considerando que conflitos não requerem necessariamente violência, e a partir de sua existência denominada de conflito e seus diversos níveis de escalada (ver tabela 1.0), a ausência da paz já se torna subentendida naquela situação.

Além do conceito mais básico e teórico da existência de conflitos e conseqüentemente da ausência de climas de pacificidade, no plano cotidiano de relações internacionais, a paz entre os povos (com ausência de conflito) é impossível pela falta de uniformidade de pensamento, hábito e cultura entre eles. A obrigatoriedade eterna de conviver ao lado de um ser de hábitos diferentes já é suficiente para criar situações de conflito. Batalhas comerciais, econômicas e culturais em franca ascensão graças ao desenvolvimento acelerado e constante dos meios de comunicação, é a certeza iminente de uma continuidade de conflitos e, até certo grau, a ausência de paz em certas situações (ver tabela 1.1).

Os homens realmente têm progredido sistematicamente em termos de desenvolvimento de formas institucionais de convivência para se viver pacificamente, mas o homem, pela liberdade atribuída por essas mesmas instituições na forma de opinião, atitude, ações e comportamento, tem seus instintos liberados na forma de competição, posse, poder e associação a semelhantes que resultará sempre em tempos de paz e conflitos variando em vários níveis de atribuição e escalada.

A busca do homem seria muito mais recompensadora não por uma paz ampla, duradoura e generalizada, mas pela paz em situações extremas de prejuízo ao ser humano e pelo estabelecimento de conflitos voltados exclusivamente para o desenvolvimento dos povos sem ameaçar uma paz que proteja as necessidades básicas do ser humano.

Escalada e grau de conflito vs. Presença de clima pacífico – tabela 1.0:

Escala 0 – 100

Escalada de grau de conflito

Presença de clima pacífico

Sem confronto de qualquer natureza - 0

Clima pacífico total – 100

Conflito básico, diário e natural/divergência de opiniões – 5

Clima pacífico quase total/situação sob controle – 95

Conflitos temperados de prejuízo individual - 20

Clima pacífico preponderante e majoritário na situação – 80

Conflito de ameaça e de prejuízo relativo - 50

Clima pacífico sob dúvida entre fracasso e sucesso – 50

Conflito de prejuízos visíveis e de amplitude razoável - 60

Clima pacífico sob desconfiança – 40

Conflito generalizado e prejuízo de amplitude previsível - 80

Clima pacífico em relativo fracasso – 20

Conflito generalizado de alto prejuízo e de amplitude crescente e destruidora - 95

Clima pacífico fracassado – 5

Conflito total e generalizado de magnitude destruidora e irreversível – 100

Clima pacífico inexistente - 0

Origem dos conflitos contemporâneos – tabela 1.1:

Nível

Exemplo

Global

Transição geopolítica, divisão norte-sul.

Regional

Problemas sociais-demográficos de fronteira

Estado (social)

Sociedade fraca: divisões culturais e assimetria étnica.

Estado (econômico)

Economia fraca: base de recursos pobre, relativa de privatização.

Estado (político)

Política fraca: Governo dividido, regime ilegítimo.

Grupos de conflito

Mobilização de grupos, dinâmica intergrupal.

Elite/Indivíduo

Políticas de exclusão, liderança discriminatória.

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