25 de dezembro de 2006

A Esquerda que virou Direita via o Populismo

Existem algumas coisas que só ocorrem na América Latina. A terminologia “esquerda” e “direita” que insistem em utilizar no continente está cada vez mais confusa e defasada.
Como latino-americanos, nunca soubemos definir propriamente os termos “esquerdista” e “direitista”. São termos que eram simplesmente atribuídos a um grupo e esse grupo o assumia ou não. Nunca houve a necessidade de se compreender o que os termos realmente significam.

Um caso bastante interessante é o caso do Partido Aprista Peruano, ou simplesmente A.P.R.A. Desde sua fundação por Haya de la Torre, o partido foi considerado um bastião da esquerda, não só peruana, mas latino-americana.
Tido muitas vezes como o partido esquerdista mais bem estruturado da América Latina, o Apra serviu de exemplo para a formação do Partido dos Trabalhadores no Brasil e até do Movimiento al Socialismo na Venezuela e na Bolívia.

No entanto, os tempos mudaram. Hoje o Apra é o partido do presidente peruano Alan Garcia, grande aliado continental de Álvaro Uribe, presidente colombiano. Seu modelo de governar (se é que há) é visto como opositor ao modo chavista de governar. Hugo Chávez, enxerga em Uribe um súdito do imperialismo americano na América do Sul. Sendo Garcia aliado de Uribe, a matemática é fácil.

Em outros tempos, Hugo Chávez e o Apra andariam de mãos dadas pela região. O que houve para que o principal partido esquerdista da América do Sul se tornasse o abrigo do “direitista” Alan Garcia?

Quando Alan Garcia foi presidente do Peru, entre 1985 e 1990, o seu governo foi caracterizado pelo fracasso econômico e pelo populismo latente.
Em seu retorno à presidência, o populismo permanece e a postura econômica ainda não pode ser avaliada. No entanto, hoje ele é visto como de direita, no entanto, em 1985, ele era visto como de esquerda.

Hoje, ele reconhece a necessidade de realizar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, algo inconcebível para um esquerdista. Além disso, surgiu uma figura no país que representa fielmente o novo esquerdismo a lá Chavez no continente, o candidato derrotado na eleição peruana, Ollanta Humala.

Como Hugo Chávez é quem dá as cartas no continente, aqueles que são a seu favor tornaram-se “esquerdistas”. Logo, os que são contra são neo-liberais de direita. Alan Garcia é um populista que não concorda com Chávez, assim ele se tornou um líder neo-liberal no mais clássico partido de esquerda da América Latina.

Não demorará muito tempo para que alguém considere um líder vestido de militar, falando de nacionalismo e com medidas econômicas descabidas como sendo de direita. No fundo, o continente se divide entre o populismo e o não populismo.

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